Na data de 21 de janeiro, Dia Nacional de Combate à Intolerância Religiosa, Thayssa Pereira (Doné Ty Ieywa), praticante do candomblé, lembra situações que já precisou enfrentar em defesa de sua crença. A data foi criada em 2007 para incentivar o respeito à diversidade religiosa. Entretanto, quase 13 anos depois, os casos de intolerância ainda fazem parte da realidade brasileira. Para contribuir com a mudança deste quadro, a Secretaria de Estado de Justiça e Direitos Humanos (Sejudh) vem ampliando sua atuação em coordenadorias fora da capital, Belém.

“Minha família é toda da umbanda, e eu sou do candomblé, que são diferentes. Mas se tiver algum evento aqui eles todos vêm”, informou Thayssa. O candomblé é uma religião de matriz africana, enquanto a umbanda é uma mistura das culturas negra, indígena e católica com elementos inspirados no candomblé.

Há cinco anos, Thayssa se tornou doné (iniciada no santo). Sua trajetória perpassa por uma série de ritos, enquanto escolhida de orixá para cumprir sua missão. Desde então, ela também é convidada para rodas de conversa e eventos de conscientização, a fim de disseminar informação e combater o preconceito. Principalmente porque, há três anos, foi vítima de injúria e é parte em dois processos que tramitam nas justiças criminal e trabalhista.

Thayssa Pereira já recorreu à Justiça contra a intolerância religiosa
Foto: Bruno Cecim / Ag.Pará

“A minha religião esteve presente desde a minha entrevista de emprego. Eu estava de preceito de um ano e usava uma cordinha nos braços, e mesmo por baixo da blusa social meu futuro chefe percebeu. Ao me questionar se era da ‘macumba’, respondi que não e aproveitei para argumentar sobre a origem do termo, que veio da época da colonização. A forma que os meus antepassados tinham para expressar a dor, o sofrimento e buscar alívio nas senzalas era fazendo as giras de culto aos orixás. Para isso, utilizavam pedaços de árvores para fazer instrumentos de percussão, e os senhores, ao ouvirem os sons, diziam que aquilo era tocar macumba”, contou Thayssa Pereira.

A forma como se posicionou garantiu a contratação e o respeito dos colegas, mas por pouco tempo. Quando um novo chefe entrou na empresa, os ritos que fazem parte da sua vida eram frequentemente mencionados de forma pejorativa. “Aquilo acabou comigo. Fiquei em depressão por quase um ano. Quando se fala de intolerância religiosa vem todo o conjunto de racismo e homofobia contra os que praticam religiões afro“, afirmou. Thayssa também sofreu assédio sexual, mas reuniu provas para um processo contra o assediador.

Alan Navegantes, gerente da Sejudh, mostra no mapa do Pará as metas de ampliação da coordenadoriaFoto: Bruno Cecim / Ag.ParáIgualdade

 – A Sejudh entende que os crimes estão interligados, por isso questões relacionadas à intolerância religiosa são tratadas pela Gerência de Promoção à Igualdade Racial, conduzida por Alan Navegantes. “Em novembro, acompanhamos um caso ocorrido em Mosqueiro (distrito de Belém), quando uma religiosa foi atacada com paus e pedras ao cumprir uma obrigação no meio da mata. Como se tratava do mês da Consciência Negra, aproveitamos para reforçar o combate também ao racismo, com uma caminhada”, informou Alan Navegantes.

Segundo ele, apesar de as religiões de matrizes africanas serem os maiores alvos, a Gerência também acompanha casos de outras denominações, como católicas e evangélicas. “Todas podem expressar sua religião, mas com o crescimento da diversidade aumentou também a discriminação. Por isso, nosso trabalho também foca na informação, participação em eventos, para que as pessoas entendam seus direitos e deveres, e saibam como proceder”, ressaltou.

Para ampliar a atuação da Sejudh nesse contexto, foram criadas no ano passado duas novas coordenadorias de Igualdade Racial nos municípios de Moju e Ananindeua. Até 2018, havia apenas em Tomé-Açu (nordeste), devido à predominância de territórios quilombolas no município. Para 2020, a previsão é expandir para Santa Izabel do Pará, Benevides, Bragança, Gurupá e Concórdia do Pará.

Agência Pará